Geral Casas com defeitos: compradores mais vulneráveis com novas leis Problemas podem passar despercebidos numa visita. Especialistas recomendam inspeção técnica pré-escritura para detetar vícios ocultos e usar de prova em litígios. 14 out 2026 min de leitura Numa moradia a norte de Lisboa, tudo funcionava à vista do comprador: as luzes acendiam, as torneiras corriam, a casa apresentava-se bem. A instalação elétrica contava outra história. Não havia ligação à terra em condições e o interruptor diferencial, o dispositivo que deve cortar a corrente no instante em que algo falha, não disparou quando foi testado. Nenhuma destas falhas se vê numa visita normal. Uma inspeção pré-compra é uma avaliação técnica do estado físico visível do imóvel, feita antes da escritura. Um arquiteto ou engenheiro percorre a estrutura, a cobertura, a humidade, a instalação elétrica, a canalização e a drenagem, e entrega um relatório enquanto ainda há margem para renegociar o preço da casa ou desistir da compra. O serviço ganhou procura em Portugal depois de duas mudanças legais seguidas. O Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8 de janeiro, deixou de exigir a apresentação da ficha técnica da habitação e da autorização de utilização no momento da escritura. E, desde 1 de outubro de 2026, o Decreto-Lei n.º 108/2026, de 29 de maio (com a entrada em vigor adiada para essa data pelo Decreto-Lei n.º 155-B/2026, de 31 de julho), obriga a escritura a mencionar o título urbanístico do imóvel. Em ambos os casos, a responsabilidade de verificação passou para o lado de quem compra casa. "A escritura regista o que o vendedor declara, mas não confirma no local o que o imóvel é. Uma inspeção técnica independente mede e documenta o que lá está, e dá ao comprador evidência datada e fotografada para decidir com mais informação", explica Mykolas Bernatavičius, da InspectOS, empresa independente de due diligence técnica e inspeção de edifícios em Portugal. Joana Andrade, arquiteta inscrita na Ordem dos Arquitetos e inspetora da PIDS na região de Lisboa, descreve o ponto cego mais comum. "Na nossa experiência, a maioria dos compradores estrangeiros ainda assume que, se a venda se concretiza, alguém oficial olhou para o edifício. Ninguém olhou", conta. Porque a inspeção da casa ganhou importância antes de comprar? Quanto custa uma inspeção pré-compra? Que problemas aparecem mais numa inspeção? Uma infiltração é um problema estrutural? As fissuras numa parede devem preocupar? Um quadro elétrico antigo significa que é preciso refazer a instalação? A idade da casa muda o que se procura O que podes verificar sozinho numa visita à casa? Que documentos deves confirmar antes de comprar casa? Para que serve a ficha técnica da habitação? O que diz a lei portuguesa sobre vícios ocultos em imóveis? A inspeção pode ajudar a negociar o preço da casa? Porque a inspeção da casa ganhou importância antes de comprar? A necessidade de verificar o imóvel antes da compra ganhou maior visibilidade depois das alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8 de janeiro. Com o novo regime, a apresentação da ficha técnica da habitação e da autorização de utilização nos termos anteriormente exigidos deixou de ser obrigatória no momento da transmissão do imóvel. A alteração não significa que um imóvel possa ignorar as regras urbanísticas aplicáveis, mas torna ainda mais importante que o comprador perceba que documentação existe e se o que encontra no local corresponde à situação conhecida do imóvel. A inspeção técnica e a verificação documental são trabalhos diferentes. A primeira procura problemas físicos na construção. A segunda procura perceber se áreas, utilizações, ampliações ou outras alterações estão devidamente enquadradas com licenças do ponto de vista administrativo e urbanístico. Quando um inspetor encontra, por exemplo, uma marquise ou uma ampliação que parece posterior à construção original, pode assinalar essa alteração. Confirmar se foi ou não autorizada exige depois confrontar o imóvel com os elementos existentes na câmara municipal. Quanto custa uma inspeção pré-compra? Os preços começam abaixo dos 600 euros e variam com o imóvel e o nível de diagnóstico. Três empresas especialistas ajudam a entender o mercado português. A PIDS realiza inspeções com arquitetos e engenheiros civis, cobre todo o país e entrega relatórios bilingues num prazo anunciado de 48 horas, a partir de 450 euros, com forte presença entre compradores estrangeiros. A BLEPO, criada em 2026 pelo arquiteto João Luís Carvalho e pelo engenheiro civil João Cunha, trabalha com vários níveis de diagnóstico, dos 300 aos 600 euros numa inspeção mais completa, e entrega relatório digital. Assente numa rede de profissionais afiliados, mantém-se para já na Grande Lisboa. A InspectOS trabalha com engenheiros inscritos na Ordem dos Engenheiros e especialistas registados na DGEG e na ADENE, cobre todo o país e faz a inspeção pré-compra a partir de 595 euros com IVA incluído. Entrega um relatório datado, fotografado e bilingue em 48 horas, com os métodos usados e as limitações da observação. Os valores e condições das três empresas são os que elas próprias anunciam. Que problemas aparecem mais numa inspeção? Cinco problemas e defeitos repetem-se nas casas que Joana Andrade inspeciona na região de Lisboa: Humidade, seja por condensação, infiltração ou capilaridade. A origem importa mais do que a mancha, e há truques simples para perceber de onde vem a humidade antes de repintar. Falhas de impermeabilização em coberturas planas, terraços e varandas. Corrosão das armaduras em varandas e bordos de laje de betão, com destacamento do recobrimento. Instalações elétricas desatualizadas. Alterações sem licença, tipicamente marquises e ampliações. Uma infiltração é um problema estrutural? Não necessariamente. Uma falha de impermeabilização não é, por si só, uma patologia estrutural. No entanto, a entrada persistente de água pode degradar revestimentos, alvenarias, madeiras e elementos de betão armado. No betão, a água e outros agentes agressivos podem contribuir para a corrosão das armaduras. À medida que o aço corrói, os produtos da corrosão aumentam de volume e podem provocar fissuração e destacamento do recobrimento de betão. Em situações mais avançadas, é necessário avaliar a perda de secção das armaduras e o estado do elemento estrutural. Por isso, pedaços de betão a destacar-se de uma varanda, armaduras visíveis ou zonas extensas de fissuração não devem ser tratados apenas como um problema estético. As fissuras numa parede devem preocupar? Depende. A existência de uma fissura não permite, por si só, concluir que há um problema estrutural. É necessário observar a localização, orientação, abertura, extensão e eventual evolução ao longo do tempo. Fissuras diagonais junto aos cantos de portas e janelas, deformações, portas que deixaram de fechar corretamente ou fissuração acompanhada por outros sinais podem justificar uma análise mais cuidada. Já pequenas fissuras superficiais em revestimentos podem resultar de retrações dos materiais ou de movimentos sem significado estrutural relevante. O importante é não tentar diagnosticar uma casa apenas pelo aspeto de uma fissura. Um quadro elétrico antigo significa que é preciso refazer a instalação? Não obrigatoriamente. Um quadro com fusíveis antigos ou uma instalação aparentemente envelhecida é um indicador de que vale a pena pedir uma avaliação elétrica. Não permite concluir, apenas pela observação, que toda a instalação tem de ser substituída. Para conhecer o estado real podem ser necessários ensaios às proteções, medição da continuidade dos condutores de proteção, verificação da ligação à terra e outras medições próprias de um profissional habilitado. É precisamente por isso que problemas elétricos podem passar despercebidos numa visita: uma tomada funcionar não significa que a instalação esteja corretamente protegida. A idade da casa muda o que se procura O ano de construção orienta o inspetor. Joana Andrade divide o parque habitacional que conhece em três períodos. Período O que costuma falhar Pedra, antes de 1950 Paredes em geral robustas. O ponto fraco está na madeira: pavimentos e estrutura do telhado, com podridão ou ataque de insetos onde entrou água. Nos prédios gaioleiros de Lisboa, ligações deficientes e alterações posteriores reduzem a resistência sísmica. Betão, anos 80 e 90 Construídos quase sempre sem isolamento térmico. As pontes térmicas em pilares e vigas geram condensação e bolor. O baixo recobrimento do betão leva à corrosão das armaduras em varandas e fachadas. A impermeabilização das coberturas planas é outro ponto sensível. Depois de 2006 Regulamentação térmica muito melhor. As fragilidades passam para a execução: fissuração e mau remate nos sistemas de isolamento pelo exterior, e janelas estanques sem ventilação suficiente, que voltam a produzir condensação. O que podes verificar sozinho numa visita à casa? Sem formação técnica, há uma inspeção rápida que ajuda a decidir se compensa chamar um profissional. Esta especialsita sugere seguir uma ordem: Começar pelo exterior: linha do telhado, fissuras na fachada, a face inferior das varandas e as caleiras. Passar às partes comuns, sobretudo tetos e paredes da caixa de escadas. Lá dentro, reparar primeiro no cheiro. Depois observar os tetos por baixo do telhado e por baixo das casas de banho. Ver atrás de móveis e roupeiros encostados a paredes exteriores e à volta das janelas, à procura de bolor negro. Conferir também a base das paredes. Abrir e fechar todas as portas e janelas, abrir as torneiras e descarregar os autoclismos. Olhar para o quadro elétrico: fusíveis antigos em vez de disjuntores são um sinal para pedir uma avaliação elétrica. Se for possível, visitar a casa depois de ter chovido. Que documentos deves confirmar antes de comprar casa? A inspeção física não substitui a análise dos documentos do imóvel. A caderneta predial tem uma função essencialmente fiscal. Os elementos que contém devem ser confrontados com outras fontes, nomeadamente a certidão do registo predial e, quando necessário, a informação urbanística existente no município. A autorização de utilização, quando aplicável, também não é uma certificação do estado atual da casa nem garante que não tenham sido feitas alterações posteriores. O certificado energético avalia o desempenho energético do imóvel no âmbito do respetivo sistema. Não é uma inspeção estrutural, nem foi concebido para diagnosticar a origem de infiltrações ou verificar a totalidade das instalações. E as atas do condomínio são particularmente importantes porque podem revelar obras já aprovadas, derramas, intervenções previstas na cobertura ou fachadas e outros encargos que não aparecem dentro do apartamento. Para que serve a ficha técnica da habitação? A Ficha Técnica da Habitação foi criada pelo Decreto-Lei n.º 68/2004 como um documento descritivo das características técnicas e funcionais de determinados imóveis destinados a habitação. Pode conter informação sobre soluções construtivas, materiais, instalações, equipamentos e plantas. Quando existe, é uma fonte de informação útil, mas descreve características reportadas à conclusão das obras e não substitui uma avaliação do estado atual do imóvel. Uma casa pode ter sofrido alterações, reparações, infiltrações ou degradação ao longo dos anos. Desde as alterações introduzidas em 2024, deixou de ser obrigatória a sua apresentação no ato de transmissão nos termos anteriormente previstos. O que diz a lei portuguesa sobre vícios ocultos em imóveis? Um vício oculto é um defeito que existia no momento da compra, não era visível numa visita normal e torna o imóvel impróprio para o uso a que se destina ou reduz significativamente o seu valor. Os vícios ocultos em compra e venda de imóveis estão regulados nos artigos 913.º a 922.º do Código Civil português, sob o regime da venda de coisa defeituosa. O vendedor é responsável durante cinco anos após a entrega do imóvel e o comprador tem um ano para reclamar após a descoberta do defeito. Acontece que a lei existe, mas a sua aplicação é complexa e enfrenta vários obstáculos: — Provar que o defeito existia antes da compra exige perícia técnica e é frequentemente contestado — Provar que o vendedor tinha conhecimento do vício é ainda mais difícil sem documentação — Os prazos são curtos e a sua contagem nem sempre é linear — o ponto de partida do prazo de um ano é a data de descoberta, não a data da compra, o que gera frequentes disputas em tribunal sobre quando o comprador “devia ter sabido”. Neste sentido, a inspecção técnica pré-compra não é apenas uma boa prática para detetar vícios ocultos antes da escritura — é também o principal instrumento de defesa do comprador em caso de litígio posterior. Ao documentar o estado do imóvel no momento da transação pode ser fundamental para servir de prova, assegurando que determinado defeito surgiu após a entrega da casa ao novo proprietário. A inspeção pode ajudar a negociar o preço da casa? Pode, desde que o diagnóstico permita transformar uma suspeita num problema identificado e, posteriormente, quantificado. Dois casos da PIDS ajudam a perceber o efeito prático. Na moradia da Costa de Prata, o interruptor diferencial não funcionou quando foi testado. "Um dispositivo de segurança que não funciona é mais perigoso do que não ter nenhum, porque o proprietário acredita que está protegido e age em conformidade", explica Joana Andrade. Os orçamentos de empreiteiros para refazer a instalação elétrica chegaram a cerca de 15.000 euros, e o comprador apresentou esse valor ao vendedor, renegociou e concretizou a compra. Num apartamento em Lisboa, o bolor em dois tetos vinha de duas canalizações do andar de cima, e os orçamentos rondaram os 5.000 euros. Como a canalização em falha ficava fora do apartamento comprado, a reparação passava pelo vizinho de cima e pelo condomínio. O comprador negociou o preço em baixa e comprou já a saber o que o esperava. "Uma inspeção salva mais compras do que aquelas que faz cair", resume Joana Andrade, em declarações. O desfecho mais frequente é o comprador renegociar o preço da casa com o vendedor e avançar com o negócio. Fonte:Idealista Geral Partilhar artigo FacebookXPinterestWhatsAppCopiar link Link copiado